Ela cruzou o oceano em busca de um amor que não deu certo. Conheceu a dor, mas encontrou na maternidade a força para dar a volta por cima… 

Ana Garcia*

Nunca tive sorte no amor. Quando, de repente, me apareceu aquela pessoa “perfeita”, me jurando amor eterno, eu achei que – por fim – Deus estava me dando uma chance.

Não pensei duas vezes: em 2008, com o diploma em nas mãos e sem dinheiro no bolso, contra a vontade dos meus pais e dos meus amigos, decidi deixar Portugal, meu País, e entrar no avião rumo ao Brasil com um bilhete só de ida.

Do outro lado do Atlântico, apenas incertezas. Mas eu, ariana, não tive medo, e achava que o amor sustentaria tudo. Casei com a certeza de que seria para sempre.

Não foi.

A queda

Aqui, me estabeleci profissionalmente, com muito esforço e persistência.

Adotei este País como se fosse meu e ele me recebeu como filha. Mas o motivo que me trouxe para a Terra de Vera Cruz desmoronou três anos depois de minha chegada… mesmo com minhas tentativas incessantes de lutar por algo que nunca existiu e que, por pouco, não me levou à ruína emocional.

Em 2014, em meio a uma depressão, engravidei. Foi uma gravidez planejada por ambos, talvez uma tentativa de salvar o que não tinha solução há muito tempo. Mas só piorou. Não tenho lembranças felizes da gestação e nem do primeiro ano do meu filho. Sim, é horrível, eu sei.

Estava eu ali, com uma benção nas mãos, e não estava feliz. Era movida pelo instinto animal de todas as mães. Afinal, era só eu e ele. E eu precisava pelo menos sobreviver pelo meu filho.

Houve dias, em que eu amamentava chorando. Sentia-me incapaz de cuidar de uma criança sozinha. E quando o bebê dormia, eu chorava. Chorava muito. “Deus, por que isto está acontecendo comigo?”, questionava. A resposta viria mais tarde.

A cura

Lembro-me muito bem do momento da minha cura. Havia se passado cinco meses do meu divórcio. Foi numa noite de domingo, em agosto de 2016. Estava na Igreja e pedi para Deus me trazer a felicidade. Ele foi tão maravilhoso que limpou o meu coração naquele instante… logo eu, que fiquei tantos anos pedindo para Ele me ajudar a manter o que, hoje, eu entendo: Ele queria tirar.

Meu filho está para completar três anos nos próximos dias.

Minha depressão está sob controle e há algum tempo já não tenho crises. Aprendi a conviver com ela e a não deixar que ela me dominasse, como acontecia tantas vezes quando o meu bebê era pequeno.

Hoje, faria muita coisa diferente. Não lutaria tanto para que meu filho tivesse a chamada família tradicional, com pai e mãe sob o mesmo teto. Porque isso não é garantia de felicidade, nem nunca foi. Também não me cobraria tanto para ser uma mãe perfeita, porque sei que sou exatamente aquilo que meu filho precisa. E, o principal, não faria pelos outros antes de fazer por mim. Esse, sim, foi meu grande erro.

Ainda tenho aqueles momentos de me sentir incapaz, com medo de não dar conta de tudo sozinha. Afinal, sou uma mulher como tantas outras, trabalho fora, cuido da casa, dos cachorros e educar uma criança não é fácil. Mas, nada como um dia após o outro.

Sei que sou a principal referência para o meu filhote. E é dele que tiro as minhas forças… de uma brincadeira com carrinhos, um passeio no parque ou só de ver aquele galeguinho me olhando e falando: “Te amo, mamãe linda”. Isso não tem nada que pague.

A gratidão

Mesmo olhando para trás e vendo tudo o que eu passei… ter meu pequeno príncipe aqui, vivo, com saúde, lindo e educado, compensa tudo.

A verdade é que aprendo mais com ele do que ele comigo. Mesmo sem saber, ele me mostra todos os dias que só o amor de mãe e filho é eterno, e só por esse amor vale apena abdicar de alguma coisa.

Um dia ele vai entender tudo. Enquanto isso, eu sigo nesta fantástica e alucinante aventura de ser mãe solo. Ainda me cobro, sim, para que, através de mim, ele conheça os princípios que deve levar para a vida inteira: amor, companheirismo, lealdade, fidelidade e respeito.

Sei que, no futuro, quando ele for adulto e pensar em casar, poderá olhar para mim e não querer passar para a futura mulher nada menos do que os valores que aprendeu comigo.

O amor

Quando vim para o Brasil, achei que estava vivendo uma história de amor.

Mal sabia eu que o amor era outro.

Era o amor pelos amigos que conquistei, pela minha carreira, pelo País que me adotou. Pelo meu filho, meu grande companheiro. Ele sim me mostrou que família de dois é motivo de orgulho, quando o que nos move é a lealdade, a parceria e o respeito.

Eu posso ter vindo para o Brasil pelos motivos errados, mas aqui permaneço pelos motivos certos.

Descobri que, talvez mais importante do que tudo, é o amor que sentimos por nós mesmos, aquele que nos faz fortes e nos mostra que somos bem mais capazes do que imaginamos.

O “amor paixão” ainda vale sim a pena, mas nossa felicidade não pode depender disso.

Felicidade é sobreviver perante o caos. O que antes quase me matava de tanta tristeza é, hoje, o alicerce da minha fortaleza. Dia após dia, percebo que existem coisas que não valem a pena e que tudo acontece por uma razão.

Sim, fiz escolhas erradas. Trocas erradas.

Poderia sim ter sido tudo diferente.

Mas como dizem por aí: tudo passa. E passa mesmo. Mais rápido do que a gente pensa.

O bom de chegar ao fundo do poço é que a partir daí é só subir. E eu sigo subindo. Um dia por vez.

* Ana Garcia, mãe do Antonio, pequeno fã de Guns’n’Roses, ACDC e Despacito. De Portugal, mora em Mogi das Cruzes (SP). É jornalista, ariana com ascendente em Gêmeos e sonha mudar o mundo com as palavras.


Crédito da foto em destaque: Arquivo pessoal

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